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Blog do Alessandro Andrade. Magrinho, Engenheiro e toca violão.

A morte de Euclides da Cunha e o Ricardão Imortal

 

Hoje Certa vez recebi um link (hoje, quebrado) com um artigo no Estadão da Luiza Nagib Eluf sobre os 100 anos da morte do escritor brasileiro Euclides da Cunha, morto numa situação nada honrosa. O nobre autor da obra “Os Sertões” “se empirulitou”, como diria o Mussum, num confronto com o amante de sua mulher Ana Emília Ribeiro, o jovem tenente do exército Dilermando de Assis.

A história real do triângulo amoroso entre o escritor, a moça e o militar, que foi um dos crimes passionais que mais repercutiram no Brasil, chegou a virar até minissérie da rede Globo, sob o sugestivo nome de “Desejo“. Tarcísio Meira fez o papel de Euclides da Cunha enquanto Guilherme Fontes fez o papel de Dilermando de Assis e uma morena Vera Fischer fez o papel da disputada Ana.

Bem, fatos históricos e televisivos à parte, o que mais me chamou atenção nessa história foi o quanto o ilustríssimo escritor corno teve dificuldade em matar o tenentinho ricardão. O cara era praticamente um Highlander ou um Chuck Norris brasileiro, se você é mais novo e não conhece direito o guerreiro imortal.

Foram duas gerações tentando acabar com a raça do Dilermando, sendo fracassadas todas as tentativas.

Acompanhe comigo as melhores partes do texto de Luiza Nagib, com grifo nosso, e veja se isso não daria um bom episódio de Arquivo X, Twilight Zone… ou qualquer seriado sobre coisas inacreditáveis e incríveis.

Em 15 de agosto de 1909, portanto, há exatos cem anos, morria o escritor, jornalista, engenheiro e professor Euclides da Cunha, num desastrado confronto, por ele mesmo provocado, com o amante de sua mulher, Ana. O famoso autor do livro Os Sertões tentou matar Dilermando de Assis, tenente do Exército e exímio atirador, surgindo de surpresa na casa do rival, no bairro de Piedade, no Rio de Janeiro, onde sua mulher havia passado a noite.

Ensandecido de ciúme e instigado por parentes e amigos a “acertar as contas”, Euclides chegou à residência de Dilermando completamente fora de si, portando um revólver que conseguira emprestado. Foi entrando e gritou: “Vim para matar ou morrer.” Dilermando correu ao seu quarto para se vestir, pois estava em mangas de camisa e queria usar a farda para enfrentar “o doutor”, como o chamava. Não teve tempo de abotoar o colarinho. Euclides localizou-o rapidamente, arrombou a porta com um chute e atirou em predeterminada direção, alvejando Dilermando na virilha. O tenente procurou tirar a arma da mão do agressor, mas, debilitado, não conseguiu e foi novamente alvejado, dessa vez no peito. Nesse momento, o irmão de Dilermando, o jovem Dinorah, que também morava na casa, intercedeu, tentando desarmar Euclides. Não teve êxito e ainda foi alvejado por Euclides na nuca. Nesse ínterim, o tenente, usando todas as forças que conseguiu reunir, pegou sua arma de fogo, que estava sobre o armário do quarto, e atirou no pulso de Euclides, para fazê-lo cessar o tiroteio, mas não foi bem-sucedido. Embora tenha sido ferido, o escritor não perdeu os movimentos e atirou novamente contra o rival. O tiro não saiu. Acionando outra vez o gatilho, agora com êxito, Euclides feriu Dilermando nas costelas direitas, causando-lhe imensa dor. Alvejado três vezes e achando que ia morrer, Dilermando atirou para matar. Sua pontaria certeira fulminou Euclides, que caiu na soleira da porta. Faleceu alguns minutos depois.

Dilermando foi levado ao hospital somente depois de prestar declarações ao delegado de polícia, situação impensável nos dias de hoje, pois uma pessoa ferida deve ser socorrida antes de mais nada. Ainda assim, sobreviveu. Ana, que estava escondida no quarto dos fundos e tinha um filho pequeno nos braços, viu-se abandonada por todos ao final do embate. Sozinha, carregando o bebê sob forte chuva, saiu a pé da residência em Piedade e rumou para a casa de sua mãe, que não quis ampará-la para não manchar a reputação do pai, o general Sólon Ribeiro.

Agora acompanhe comigo… o tal Dilermando levou 3 tiros, deu depoimento à polícia SEM NENHUM ATENDIMENTO MÉDICO ATÉ ENTÃO, conseguiu “dar um perdido” na doce Ana e ainda SOBREVIVEU! Isso sem falar no tremendo vexame que o ilustre escritor demonstrou empunhando uma arma, fato que demonstra que o verdadeiro dom de Euclides era portar apenas sua preciosa pena. Ah, e os chifres.

Agora acompanhe o que aconteceu depois com o quase imortal Dilermando:

Dilermando foi preso, processado e julgado por homicídio pela Justiça Militar. Terminou absolvido por legítima defesa. Ao sair da prisão, casou-se com Ana.

Foram muitas tragédias em uma. Em 1916, por volta das 13 horas do dia 4 de julho, Dilermando estava no Cartório da Vara de Órfãos, pleiteando a guarda de Manoel Afonso Cunha, filho de Ana que se encontrava com familiares de Euclides, quando ouviu uma detonação atrás dele, seguida de forte ardor. Suas pernas fraquejaram, a vista turvou-se e sobreveio grande mal-estar. Voltou-se e distinguiu um vulto vestido com uniforme de aspirante da Marinha. Era Euclides da Cunha Filho, aos 18 anos, procurando vingar a morte do paiDilermando esperou que algum dos presentes desarmasse o rapaz, mas todos fugiram. Novo tiro nas costas. Percebendo que não mais poderia permanecer inerte e lamentando profundamente tratar-se do filho de sua mulher, Dilermando sacou sua arma e atirou três vezes. Em seguida, desmaiou. Euclides da Cunha Filho morreu, Dilermando restabeleceu-se. Os jornais da época atribuíram-lhe “resistência hercúlea”.

Resitência Hercúlea??? Dilermando é praticamente um Kratos, o espartano que chutou a bunda do deus da guerra no jogo God of War! Ou ainda… estaria próximo do herói Wolverine que detém um fator de cura que lhe capacita ser ferido de praticamente qualquer forma e se restabelecer depois! Dois tiros pelas costas não são nada para tal ser.

Por fim, além de resistir a tudo isso, 100 anos depois do primeiro escândalo, o cara é exposto pela articulista de um dos maiores jornais do Brasil, onde inclusive o escritor traído Euclides da Cunha escreveu até sobre a Guerra de Canudos, que as palavras mais bonitas são de Dilermando e que, no fim das contas, a culpa toda foi do Euclides mesmo:

Sobre o amor que sentia por Ana, Dilermando declarou ao jornal Diário de São Paulo que seu único pecado foi “ter amado, aos 17 anos, uma mulher casada cujo marido não conhecia e se achava ausente em paragens longínquas”. Ana tinha 30 anos quando conheceu Dilermando e se apaixonou por ele.

A esposa de Euclides jamais o enganou, não o “traiu”, como se alegou à época e até hoje alguns repetem. Ela contou ao marido, assim que ele retornou de Canudos, que estava enamorada de outro homem e queria se separar, mas Euclides não concordava com isso.

O cara com 17 anos pega a mulher de um dos maiores escritores do Brasil, sobrevive a dois atentados de morte, totalizando 5 tiros, entre eles, nas costelas, no peito e pelas costas e ainda paga de bom moço apaixonado 100 anos depois.

Realmente… esqueçam Chuck Norris. O nome da lenda é “Dilermando de Assis“.

Artigo no Estadão (quebrado) enviado por MSN pelo Allan.

Este post fazia parte do finado blog fatosinuteis.com e foi resgatado do limbo. Data original: 17/08/2009.

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Comentários

3 Comments

  1. ANNA uma heroina,amou tragicamente, Dilermando um aparente súdito, amou fatidicamente Euclydes um aparente algoz ,amou sinistramente , findando numa dramatica comovente nefasta catastrofica e fatal historia de paixões e amor-ANNA, heroína, amou intensamente, profundamente,corajosamente com todos os extremos que esse amor pediu e impôs,fazendo dessa tragedia e seus infortúnios um verdadeiro e impar brilhante da literatura e pérola da arte universal

  2. Além dos filhos, A vítima inocente foi Dinorá de Assis,nós o povo ficamos sem a epopeia e maturidade do escritor Euclydes da Cunha…os 3 personagens desse fatidico,dilacerante e poderoso amor foram vitimas e algozes do proprio infortunio ,pregado pela circunstância, pelas MOIRAS e pelos Deuses .Tudo colaborou para que esse desenlace se apoderasse do DESTINO ,foi FATAL
    ANNA, heroína, amou intensamente, profundamente,corajosamente com todos os extremos que esse amor pediu e impôs,fazendo dessa tragedia e seus infortúnios um verdadeiro e impar brilhante da literatura e pérola da arte universal ANNA uma heroina,amou tragicamente, Dilermando um aparente súdito, amou fatidicamente Euclydes um aparente algoz ,amou sinistramente , findando numa dramatica comovente nefasta catastrofica e trágica historia de paixões e amor
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  3. filhos,e Dinorah as vítimas ,nós o povo, ficamos sem a epopéia e maturidade do escritor Euclydes da Cunha…os 3 personagens desse fatidico,dilacerante e poderoso amor foram vitimas e algozes do proprio infortunio ,pregado pela circunstância, pelas MOIRAS e pelos Deuses .Tudo , colaborou ,compactuou ,contribuiu e corroborou para que esse desenlace se apoderasse do REAL ,foi FATAL as artimanhas tecidas ,manipuladas pelo implacável do DESTINO, onde todos foram vitimas , e o AMOR tragico pungente,torturante,profético foi VENCEDOR se tornando SEMI_DEUS, DIVINIZANDO-SE

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