ALEH Blog

Blog do Alessandro Andrade. Magrinho, Engenheiro e toca violão.

A sina dos professores de música

O texto não é tão grande… é que o blog é estreitinho.

Ao longo da minha vida, tive poucos professores de música. Graças a Deus, nasci com um ouvido consideravelmente bom, o que me ajudou a aprender bastante coisa sozinho com instrumentos musicais, primeiro o teclado depois violão e guitarra. Mas sempre tem um momento em que você precisa de instrução de alguém mais experiente, ou até mesmo a simples necessidade de disciplina e método na aprendizagem. Foi quando eu procurei os professores.

O que mais me impressiona sobre os professores de música é que eles parecem ter sempre o mesmo perfil. A maioria gostaria de ter sido músico de sucesso, alguns tocam na noite ou em batizados/casamentos e afins e sempre parecem ser não muito bem sucedidos.

Tive meu primeiro professor de guitarra quando já tocava violão há mais ou menos 6 meses. Eu já sabia a maioria dos acordes básicos e era capaz de tocar qualquer música no violão que eu gostasse na época. Mas eu queria mais. Eu queria solar e improvisar arranjos. E queria tocar guitarra também porque naquela época eu queria fazer uma banda com um colega do colégio, quem sabe conto mais detalhes sobre isso em outro post.

Encontrei então esse cara que ensinava guitarra e violão. Ele dava aulas numa sobreloja na W3 Sul, aqui em Brasília. Pra mim era ótimo, porque era perto de casa. Acho que eu e meu colega ficamos sabendo por um panfleto. Combinamos de ir conhecer o local, pra saber sobre preço e frequencia das aulas. Chegamos lá, vimos que o local era bem parecido com um estúdio, tinha equipamento de som, além de espaço pra bateria e tudo. Explicamos qual era nosso interesse nas aulas e pedimos pra ele nos mostrar alguma música, só pra saber o quanto o cara tocava. Ele tocou Garota de Ipanema na guitarra, fazendo o acompanhamento e a melodia de uma vez só. Pra mim aquilo foi fantástico e suficiente pra me matricular.

Não lembro qual era o nome do professor… só lembro da sua aparência franzina. Tinha muitos pelos no braço, era meio branquelo e tinha um meio-sorriso com dentes afastados. Seu método de aula era muito simples: Ele virou pra mim e perguntou “Você conhece Mozart Mello?” Eu disse “não”. No que ele disse, “pois é, ele é um grande guitarrista e eu uso o método dele. Senta aí e segue essas escalas”. Então a aula era isso, ele ligava um metrônomo, e eu tinha que ler as escalas e fazê-las dentro do tempo. Enquanto isso ele atendia outros alunos mais iniciantes (no máximo 2) ou ia ler jornal, sei lá, algo assim.

Depois de alguns dias, descobri que ele morava naquele lugar. Foi num dia em que eu esqueci minha palheta depois do fim da aula e voltei pra buscar. Quando cheguei lá, chamei por ele na porta e ele apareceu com uma escova de dentes dentro da boca cheia de espuma. Disse que tinha esquecido minha palheta. Ele murmurou alguma coisa e me deixou entrar e pegar. Acabou que só fiquei por lá uns 2 meses, porque meu pai me tirou da aula de guitarra por castigo, já que minhas notas na escola nessa época começaram a cair (por causa do tempo perdido com o violão).

Depois disso, tive um professor de violão clássico, anos mais tarde. Passei bastante tempo meio enferrujado com o violão, usando somente as técnicas que aprendido com meu professor anterior Mozart Mello. Até que chegou um momento quando eu queria novamente mais, algo mais elaborado. Nessa época, eu estava morando em Aracaju/SE devido a uma transferência do trabalho do meu pai. Estava gostando e tudo, mas não conhecia direito a cidade. Um dia, quando estava caminhando pelo centro da cidade, passei na frente da Sociedade Filarmônica de Sergipe – SOFISE e fiquei curioso quanto aos cursos que ofereciam. Entrei e perguntei sobre algum professor de violão clássico.

Fui apresentado a um senhor moreno, meio magro e alto que tinha a aparência do Seu Madruga. Ele perguntou “É você mesmo que quer aprender violão clássico?” Eu disse “Sim”. “Poxa… fico surpreso com um rapaz jovem como você se interessar por violão clássico”, disse ele. Fiquei me sentindo uma jóia rara, esperando ser lapidada. A próxima visita que fiz ao local foi para ter minha primeira aula.

Chegando lá, já trazendo meu caderninho com pautas de partitura, ele escreveu algumas noções básicas de teoria musical e me deixou dever de casa. Também me mostrou algumas folhas de ofício surradas com partituras de solfejos que eu deveria praticar num quartinho escuro que tinha lá. Disse pra eu ir tirar xerox das folhas e voltar pra praticar. Sempre me lembrava que deveria colocar o pé esquerdo num banquinho e tocar na posição clássica, pra não ter problemas de coluna como ele (o cara era realmente meio torto).

Sobre a técnica do cara, ele realmente era muito bom! Me mostrou que com o tempo eu ia aprender a tocar em várias velocidades (tipo que nem na Dança do Créu, que não existia na época): muito lento, lento, normal, rápido, muito rápido e super rápido que era quando mal dava pra ver os dedos dele dedilhando e parecia que eram tipo uns 3 violões ao mesmo tempo. Meu pai disse em outra ocasião que viu meu professor tocando o Hino Nacional Brasileiro numa solenidade militar que ocorreu por lá. Sensacional.

Com o passar do tempo, percebi que toda aula eu teria que tirar xerox dos exercícios. Naquele tempo, eu não tinha emprego e não tinha acesso a dinheiro com tanta facilidade. Tinha dias que eu chegava lá sem um puto no bolso. Aí meu professor dizia “tudo bem… depois você me paga” e me dava umas moedas pra tirar xerox. Esse fato foi se repetindo outros dias… e outros… até que um dia ele ficou puto e disse que não ia me dar moeda não.

Nessa época, eu estava ensaiando a peça Ave Maria pra tocar no recital de fim de ano. Ele estava apostando na minha apresentação, estava muito ansioso. Mas, como sou evangélico, me sentia desconfortável em tocar um hino de exaltação a Maria… Isso me incomodou tanto, que um dia resolvi deixar de ir a aula. Isso era mais ou menos em outubro. Por vezes, meu professor ligou pra mim meio desesperado por ter perdido uma parte do seu recital, me pedindo pra voltar às aulas. Nunca mais fui lá. Dessa época, guardo o único chorinho que sei tocar inteiro, uma música chamada “Indiferente“. Foi como fiquei sobre o tal recital.

Outras experiências que tive foram com professores de bateria. Eu tive um professor de bateria numa Igreja Fonte de Vida, que ficava perto de casa, já de volta a Brasília. Sempre tive vontade de tocar bateria mas nunca tive a oportunidade. Resolvi aprender com esse cara porque ficava perto de casa e eu poderia aprender a tocar músicas evangélicas, apesar da minha igreja ser muito tradicional e não ver com bons olhos esse instrumento.

O nome do professor era Saymon. O cara era um multi-instrumentista. Tocava teclado, violão, guitarra, bateria e ainda cantava. Tinha acabado de lançar um CD independente, que eu até resolvi comprar pra ajudar, onde ele tocava a maioria dos instrumentos, além de ter composto as músicas. Ele era bem magrinho, voz aguda e bem animado. O método dele era somente prático. Ele não tinha muita noção de teoria, então era tudo na base do “eu mostro e você repete”. Depois, com o tempo, fui tentando tirar músicas que eu gostava e fomos até trocando figurinhas.

O coitado falava sempre de pessoas que davam o cano nele, não pagando as mensalidades das aulas direito. Tinha até um pastor que devia ele até aquele dia. Ele me contava também algumas dificuldades que já passou sendo professor de música. Teve uma vez que o lugar onde ele dava aula se alagou com a chuva, molhando o teclado e outros instrumentos que ele usava pra ensinar. O coitado ficou desesperado e desmontou o teclado inteiro pra tentar secar por dentro, afinal, aquilo era literalmente seu “instrumento de trabalho”. Ele era bem legal, mas vivia quebrado. Até hoje fico tentando me lembrar se paguei ele direitinho… =/

E o último, há pouco tempo, talvez poucos meses foi o Heros. Sim, o nome do cara é Heros. Toca numa banda de Rock Gospel com o pai e o irmão, é mais novo que eu mas toca bateria “com louvor”. A família dele abriu tipo um misto de estúdio/escola de música no mesmo prédio onde eu moro. Fiquei um bom tempo fazendo bateria com ele, que cobrava bem barato. Parei porque eles resolveram se mudar e tentar outro projeto, porque não tava valendo muito a pena no aspecto financeiro. Ele chegou a me confessar que eu era seu único aluno. Não vou escrever muito sobre ele porque ainda tenho contato e ele pode estar lendo isso agora e pode não gostar… mas o cara é super gente boa!

Enfim, todo esse texto enorme foi pra mostrar como me impressiona a sina que levam os professores de música, sempre nos trancos e barrancos, mas sempre com a esperança de que, algum dia, vão ter todo o sucesso que merecem como artistas! Espero que nenhum professor de música tenha se ofendido, isso é uma homenagem.

* Fonte da primeira imagem no link. Por favor, não me processem.

** No Dia 22 de Novembro comemora-se o Dia da Música. Meus parabéns adiantados a todos os músicos, profissionais e amadores, de todo o mundo!

*** Eu prometo que os próximos textos serão menores!

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Comentários

3 Comments

  1. O problema é que grande parte dos músicos não gosta de ensinar hehe, já fui professor de clarinete e digo: é um saco! hehe. Geralmente se faz isso mais por necessidade mesmo, não que isso seja ruim, o problema que a valorização de cultura no Brasil só se dá através de meios midiáticos…

  2. Se você está procurando instrumentos musicais, LUTHIER MARINHO visite http://www.marinhoguitars.com

  3. Muito interessante esta percepção. De fato, a educação no Brasil ainda sofre graves problemas e vemos na educação musical um reflexo disso. E tem esse lado que muitos sonham em ser músico e se tornam professores frustrados. Mas que o leitor deste blog não pense nisso como um regra, de uma realidade pessimista, sem futuro. Existe em nosso país excelentes músico-educadores (e educadores-músicos). Me refiro a uma classe de pessoas felizes e realizadas pelo que fazem, e com direito a um salário decente. Este grupo poderia (e deveria) ser maior (afinal quem aí vive sem música?) Mas isso ainda esbarra em falta de políticas públicas e na necessidade de mudança de muitos dos nossos paradigmas.
    Aleh, muito bom o texto!

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